terça-feira, 23 de março de 2010
a profundidade de um corpo
se retirando do que é sólido
a superfície desse poço que nunca se alcança
a queda latente
a luta contra ela
a resistência perseverante
na verdade, tudo pode ser um engano melindroso
passado da queima das vistas
do medo nocivo, da desproteção eloqüente
e da confusão indecifrável
que se resgata com o feixe de luz longínqua
que se abre com desfecho da aventura desmedida
segunda-feira, 22 de março de 2010
a importância do ócio criador
Vou colocar agora uma coisa que eu escrevi num momento de revolta contra a rotina.

Conforme a Mitologia grega, Sísifo era um mortal muito astuto, que não suportava a idéia de que um dia deveria morrer.
Acontece que certa vez, chegado o dia de sua morte, o grande Zeus envia à Terra Tânatos, o deus da morte, para buscar Sísifo e levá-lo ao mundo subterrâneo. Porém este, esperto como era, ao encontrar com o enviado de Zeus, elogiou sua beleza e pediu para deixá-lo enfeitar seu pescoço com um colar. Tânatos, lisonjeando, aceitou o presente, mas acabou sendo preso, pois o colar era, na verdade, uma coleira.
Assim Sísifo conseguiu o que mais almejava na vida, driblar seu destino e livrar-se da morte. Mas não demorou muito para arranjar novas encrencas, mas agora com Hades, que por ser deus da guerra precisava da morte para consumar suas batalhas. Como Tânatos estava aprisionado, passou-se um tempo sem que ninguém morresse. Então Hades foi atrás de saber o que estava acontecendo com o deus da morte, e ao descobrir os feitos de Sísifo, mandou-o imediatamente ao encontro de Zeus, para que recebesse uma punição.
Sísifo foi condenado a rolar eternamente uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível.
Esse trabalho rotineiro e cansativo manteve Sísifo na Terra por toda a eternidade. Mas seria mesmo essa a vida eterna que um dia ele sonhara? Essa é uma questão que norteia muitos homens hoje em dia, e ela está muito relacionada à negação da morte, como acontece também na história de Sísifo. Eu digo isso pois existem estudos que tratam do enterro dos mortos como a primeira manifestação de consciência do ser humano. Foi quando o homem passou a entender que existia um tempo entre o nascimento e a morte. Esse tempo é o que chamamos de vida. Acontece que desde então, o homem passou a cada vez mais querer driblar a morte. Inventando mil coisas para preencher a vida.
Assim como Sísifo, muitas vezes nós temos a mania de nos acharmos mais poderosos do que realmente somos. Sísifo quis enfrentar a morte, e nós também estamos tentando. Fizemos da nossa sociedade um sistema baseado na competição. Quanto mais pessoas você tiver abaixo de você, mais dinheiro você terá para alcançar aquilo que você nunca viu de perto, mas que acha que seja a verdadeira felicidade.
As pessoas se vêem então, na obrigação de ocupar um lugar de prestígio na sociedade. E muitas vezes realizam trabalhos que dão dinheiro, mas que de nada valem.
No meio dessa corrida insana do capital, as pessoas perdem o seu tempo. Por causa de tanto trabalho e de tanta pressa em trabalhar, ninguém mais tem tempo para pensar na real felicidade, que muitas vezes não ocupa sequer um minuto de nossas vidas.
Nosso pequeno tempo livre está em algum lugar. E por menor que ele seja, nós precisamos procurar nele algo que nos faça bem de verdade. Não acho que a melhor coisa a fazer seja chegar sexta feira em casa cansada de tanto trabalhar, encher a cara para relaxar e depois no sábado acordar com uma tremenda dor de cabeça, passar o dia todo bebendo água para poder pegar uma balada à noite, para depois finalmente, no domingo, sentar a bunda no sofá e assistir ao Faustão, ao big brother, ao fantástico e dormir babando ali mesmo, até o despertador tocar e a gente voltar pra nossa tão odiada rotina.
Eu sei que é difícil, ou quase impossível nadar contra a corrente. Não acho que ninguém deva parar de trabalhar. Eu só acho que devíamos ter menos medo. Medo de morrer, medo de se arriscar, medo de se conhecer. Temos que achar na nossa pilha de deveres, um momento para o ócio. E o mais importante é que seja um ócio criador, que nos faça parar de sermos tão ambiciosos quanto Sísifo. Devemos parar de exigir tanto da vida, e deixar que ela exija de nós a própria vida.
Minha primeira postagem, espero que dê certo
Isso ficou muito na minha cabeça.. então eu escrevi uma coisa...
Eu tentei enxugar ao máximo as minhas idéias, e mesmo assim o texto ficou um tanto quanto comprido. Mas eu fiquei com vontade de compartilhar essas idéias, então eu vou postar mesmo assim... leia quem tiver saco! obrigada!
Falar sobre uma verdade absoluta, hoje em dia, é uma tarefa um tanto quanto intimidadora, pelo seguinte motivo: com uma característica cada vez mais individualista, as pessoas se dividem em opiniões muito divergentes e vivem a discutir e a discordar do pensamento alheio.
Quando eu digo que as pessoas estão adquirindo cada vez mais uma característica individualista, estou querendo dizer que isso é um processo, e que antes, em tempos muito remotos, essa individualidade já chegou a nem existir entre os seres humanos. Isso aconteceu, quando nós, assim como os outros animais, tínhamos uma “alma grupal”.
Esse conceito de “alma grupal” é do pensador Rudolf Steiner, antropólogo que viveu entre 1861 e 1925. Para mim, Steiner foi mais do que isso. Ele foi um cientista e terapeuta do corpo, da alma e do espírito, que explicou muitos dos conflitos e desarmonias humanas através, dentre outros, desse seu conceito de “alma grupal”.
Bem resumidamente podemos dizer que para Steiner os animais não possuem um eu, tal como o homem o possui. Esses eus humanos são de tal natureza que cada homem tem o seu eu. No caso dos animais é diferente: eles têm um eu grupal, uma alma grupal, o que significa que um grupo de animais da mesma espécie tem um eu comum. Esse eu comum dos animais está no mundo astral, ou seja, existe uma entidade superior, um poder central, que rege os animais de certa espécie.
Para entendermos melhor esse poder central, podemos usar a imagem um homem que está atrás de uma parede com dez orifícios e, através desses, ele enfia seus dez dedos. Não seria possível ver o homem, mas qualquer cabeça sensata concluiria: aí atrás há um poder central ao qual pertencem os dez dedos.
Essa alma grupal é o que dá aos animais a sabedoria da natureza. É por causa dela que, por exemplo, determinadas espécies de pássaros migram para altitudes e direções bem determinadas a fim de escapar do inverno, e na primavera retornam, por outros caminhos. E aqui podemos perceber a presença de uma verdade absoluta.
Os pássaros não têm a capacidade de discutir ou defender idéias opostas, mas se tivessem não o fariam, pois para eles não existem idéias opostas. O poder central, que rege seus instintos, é para eles uma verdade absoluta. Todos agem dessa mesma maneira porque, inconscientemente, sabem o que é melhor para eles.
Segundo Steiner, o homem só chegou a seu eu atual gradualmente. Antes disso ele também possuiu uma alma grupal. Mas isso foi há muito tempo. Naquela época as condições de vida tão diferentes, que o estado de sono e o estado vígil do homem eram muito próximos. Em estado de vigília o homem ainda não via contornos tão firmes, perfis tão nítidos, cores tão intensas, ligados às coisas. Em compensação, sua consciência não cessava completamente durante o sono, e então ele via as coisas espirituais, e por isso ele possuía a sabedoria da natureza.
Com o passar dos tempos, o mundo físico foi ganhando cada vez mais contornos e clareza para o homem, e o mundo espiritual foi se tornando cada vez mais obscuro. O homem foi deixando sua alma grupal e pouco a pouco se desenvolveu a consciência individual.
O próprio Steiner classifica a alma humana em quatro instâncias, ou faculdades da alma: alma da sensação (evoluiu entre egípcios e babilônicos); alma do intelecto (desenvolvida no período grego-romano e helenístico, daí a eclosão da filosofia); alma do sentimento (desenvolvida na idade média, daí a importância da fé e outros valores afetivos da época); e alma da consciência (que está agora, na modernidade, em plena época de evolução).
As sociedades e sistemas nascem, se desenvolvem e evoluem pelas mãos do homem, e acabam afastando-o do seu próprio eu. As regras e os caminhos já determinados antes de nascermos, tornam nossa intuição e nosso instinto humano quase que inúteis. E como quase não precisamos usá-los no dia-a-dia, eles se tornam difíceis de acessar.
Eu penso que ainda existe alguma coisa comum na alma de todos os homens. Eu me convenço disso cada vez mais. A obra “Inconsciente coletivo e arquétipo”, do psicanalista Carl Gustav Jung, foi uma das coisas que reforçou essa idéia na minha cabeça.
Fazendo uma analogia com o conceito de “alma grupal”, o inconsciente coletivo seria a parte que sobrou de comum na psique dos homens. Essa parte está no nosso inconsciente, e seria então a nossa verdade absoluta, que é igual para todos.
Pelo fato de que essa verdade está contida no inconsciente, aparecem as opiniões divergentes e as verdades relativas, porque junto com o processo de individualização do ser humano, veio o afastamento entre o nosso inconsciente e o nosso consciente. E como hoje em dia nós estamos muito mais ligados ao consciente, a verdade absoluta está muito distante para nós.
A verdade absoluta, da qual eu falo, não é uma frase, ou uma coisa concreta. Essa verdade é simplesmente a ausência de discórdia. É o consenso e a harmonia entre as pessoas.
Minha visão pode parecer utópica, mas eu prefiro acreditar nessa verdade. E não acho que hoje em dia, no sistema em que vivemos, ela seja inútil. Pelo contrário, é agora que precisamos dela. Mas não é tão fácil acessá-la, pois ela aparece através de símbolos, aos quais Jung chamou de arquétipos.
Esses arquétipos podem ser notados nas obras do inconsciente, como por exemplo, no sonho. Os sonhos são de extrema importância para a nossa aproximação com a nossa essência. Por isso precisamos prestar atenção nos nossos sonhos e saber interpretar os arquétipos que eles trazem.
Outras obras do inconsciente, que podemos usar para acessar a verdade absoluta, são as mitologias e os contos de fadas, pois eles trazem, em forma de arquétipos, características e eventos comuns a todos os seres humanos. É por isso que podemos identificar temas parecidíssimos, ou até idênticos, em mitologias e contos de fadas de regiões muito distantes entre si, que na época que foram escritas, não tinham nenhuma maneira de comunicação.
Para concluir, eu digo então, que a verdade absoluta existe, e pode ser acessada. Mas ela só trará alguma harmonia, no dia em que todas as pessoas puderem ver além de seus próprios problemas, opiniões e valores. É preciso olhar para o que existe de humano dentro de nós e em cada uma das pessoas que nos rodeia. E para isso de nada valem as regras (que serviriam, em tese, para “facilitar” a convivência social). Devemos, pelo contrário, saber quem realmente somos, independente de qualquer sistema ou rótulo, nem que para isso nós esbarremos nas margens da sociedade. Só então saberemos o que realmente queremos e precisamos.
domingo, 21 de março de 2010
urgência
qual a urgência em aproximar-se do desejo?
e se fôssemos cegos? (será que não somos?)
teríamos urgência no tocar?
seríamos, ainda, superficiais?
amaríamos o quê? quem?
desejaríamos o que além de sentir na pele a cor do mundo?
sentir na pele o cheiro do toque?
teríamos urgência pela vida?
mesmo fundindo-se na pele de tantos?
e se nossos limites se esfumaçassem?
teríamos urgência em possuir?
teríamos nomes e tom de voz?
teríamos ainda o vazio?
qual a urgência?
sexta-feira, 19 de março de 2010
Eu sou Autêntico?
Pensarmos sobre o quao autênticos realmente somos é uma reflexao árdua. Porque o senso de autenticidade é algo que buscamos o tempo todo - nao é estático. É ele, afinal, que nos guia em nossa carreira, em nossos relacionamentos, em nossa convivência social. É o propulsor que nos faz entender o que realmente queremos e correr atrás daquilo. O conceito de autenticidade está relacionado a diversos fatores, mas talvez o mais fundamental deles seja o autorreconhecimento: conhecer e acreditar em nossas próprias motivaçoes, emoçoes, preferências e habilidades. "Ele começa na infância, quando somos capazes de nos ver como seres independentes, com vontades próprias, ainda que nao tenhamos a plena consciência disso", afirma o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos. Na adolescência, buscamos tribos, roupas e rótulos nos quais possamos nos encaixar como uma forma de percebemos o que somos (ou nao!) - quem aí nunca foi um roqueiro invertebrado ou frequentou uma turma bem estranha nos tempos de colégio? Conforme nos tornamos adultos, criamos compromissos com a carreia, a comunidade, a fé e a família em busca da nossa autoimagem. (E entramos, as vezes, em crises existenciais ao procurar ela.)
A autencidade está em reconhecer desde qual comida você quer colocar no prato até a maneira como está se sentindo agora, enquanto lê esse texto. Ela exige um exercício contínuo de consciência. Você precisa refletir na hora de escolher entre os 200 canais na TV a cabo, que tipo de café vai solicitar na padaria, de que forma vai expor a sua esposa que está chateado com ela sem ofendê-la.
Ser autêntico pode ser exaustivo, dá trabalho. Mas no fundo é nossa capacidade de sermos originais que permite avaliar nossas forças e - pricipalmente - nossas fraquezas diante do nosso dia a dia. Por isso a autenticidade está ligada a nossas atitudes.
Ela requer que possamos agir com congruência com nossos próprios valores e vontades, mesmo sob risco de rejeiçao. Isso é essencial para nossos relacionamentos mais próximos, uma vez que a intimidade nao pode ser desenvolvida sem abertura e honestidade. " A autenticidade é um imporviso. Exige trabalho e respostas que nao sejam prontas, uma interlocuçao que supere as formalidades. É a intimidade da criaçao a todo instante, e por isso exige tempo a perder", reflete o poeta Carpinejar. Como no exemplo da Graça (personagem literária, citada no ínicio da matéria), é quase impossível viver feliz em um relacionamento em que nao se pode - ou nao se quer - ser o que se é. Viver como o outro é mais fácil, claro, mas muito mais apriosionante.
[...]
Recuse imitaçoes
Vida Simples, Revista.